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![]() Desenho © 2000, Government of Yukon ( 67 ) Um caçador como muitos
Fôra sempre um morcego solitário. Não tinha amigos e brincava sozinho, mas era pouco divertido porque conhecia de cor todos os jogos. Não tinha contendores e com ele próprio lutava, mas era pouco compensador porque sempre que ganhava - perdia. Não tinha amores e apaixonou-se por seu reflexo, mas era pouco estimulante porque não havia rivais para enfrentar, nem conquistas diárias de afeto ou todas as pequenas coisas mesquinhas de uma relação sanguínea. Somente de cabeça para baixo o mundo parecia se encaixar. Nas poucas vezes em que se aventurou para longe da caverna, na cidade febril e barulhenta, se apaixonou por um guarda-chuva negro e o seguiu por bons vinte minutos, em vôos rasantes debaixo da chuva fina, até que se perdeu numa porta aquecida. Dele restou um resfriado desagradável e uma dor de cabeça persistente. Tentou fazer amizade com um beija-flor com quem compartilhava, à noite, o delicioso néctar de uma campânula transparente. Mas o pássaro fugiu assustado ao ver o sombrio companheiro, espalhando luz com suas penas coloridas, humilhando-o com seu vôo nervoso e seus motejos:
Os outros beija-flores riam e giravam as asinhas tão rápidas de endoidecer. O morceguinho voltou triste para a caverna. De ponta cabeça o mundo parecia se encaixar. Insistente no erro, amou um automóvel azul-marinho, uma vassoura que jamais correspondeu aos seus sonares e uma alva dama-da-noite que o entontecia de perfume, mas nunca o deixou se aproximar de suas pétalas. Acomodou-se, então, ao inevitável. Seguiu para a grande caverna de seus iguais, acasalou-se com uma morcegona jeitosa e teve três morceguinhos simpáticos. De vez em quando, ainda olhava esperançoso para algum guarda-chuva vibrante ou entontecia com o perfume de uma flor mais desarmada. Mas foi feliz a seu modo. Aprendera que vivendo pelo radar era possível encarar o mundo sem traumas. E de ponta cabeça tudo ainda se encaixava no mesmo lugar. Até que conheceu a mariposa noturna... E isto é uma outra história que apenas prova que os morcegos, como toda gente, aprendem, mas não completamente. O amor é o mais subversivo dos sentimentos Porque, como eles, é, aparentemente, Apenas aparentemente, Cego.
Maria Helena Cordeiro de Souza
Bandeira (heterônimos Bárbara Helena, Maria
Bandeira, Oliva Augusta) - Artista Plástica, foi professora
de desenho, pintura e História da Arte. Hoje em dia trabalha
como ghost-writer e se dedica a escrever, principalmente FC e
Fantástico. Formada em Jornalismo pela PUC RJ tem,
também, cursos incompletos de Psicologia PUC_RJ e Pintura
(ENBA-Rio).
Com o heterônimo Maria Bandeira, participou dos mais
importantes salões do Brasil, inclusive vários Salões
Nacionais de Artes Plásticas e uma Bienal Nacional.
Como
Bárbara Helena é colaboradora com crônicas e contos do
site Mal Crônico. Como Maria Helena Bandeira foi a vencedora deste
primeiro trimestre de 2001 do Concurso Permanente de mini-Contos
do site português Simetria, dedicado
à FC e Fantástico e teve outro conto publicado na Blocos, como o
melhor desta primeira quinzena de junho/2001.
Site Pessoal Maria Helena Bandeira
Biografia pinçada do site Anjos de Prata
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