Lucia Padilha

 
 
Morcegos - Conhecer para Proteger
      

     
   
 

  

Um caçador como muitos

Desenho © 2001 Basically Bats Wildlife Conservation Society, Inc ( 68 )

No inicio causou verdadeiro alvoroço; os moradores da casa, família e até os vizinhos resolveram intervir. Aquilo era inadmissível, perigoso. Coisa de gente excêntrica, que gosta de ser diferente dos padrões. E ela nem aí pro povão; tava achando bom demais...

Todo finzinho de tarde, quando a claridade ia cedendo espaço à escuridão, ela corria à espera dele. Sentava-se e ali passava quase uma hora inteira, completamente absorvida, vendo-o completamente à vontade.

No inicio ele pareceu se ressentir com tanta observação, mas depois se acostumou e até se arriscava a uma premeditada exibição; sabia que tinha platéia atenciosa e encantada com sua beleza.

Ela não tinha coragem de se aproximar demais; temia a reação dele. Ele também preferia se mostrar a uma certa distância, afinal nunca se sabe....

Assim passaram-se meses. Ela encantada; ele cada vez mais à vontade. Ela lhe criou um nome; creio que ele fez o mesmo. Se entendiam pela troca de olhares; pelos gestos de cada um.

Um dia criou coragem; falou com ele. Começou dizendo coisas tolas, mas quando percebeu aqueles olhos brilhantes voltados pra ela, foi contando de suas alegrias, dores, saudades. A atenção dele era irrestrita. Sabiam-se diferentes demais, mas havia amor.

Já passavam quase duas horas juntos diariamente e até os vizinhos acabaram se acostumando; nem comentavam mais sobre a “doida da casa ao lado”. Mas houve um dia em que ele não veio. Já era madrugada e nada. Será que havia se mudado? Teria enjoado de sua companhia? Encontrara finalmente uma companheira?

O dia amanheceu, ela levantou-se desistindo da espera. Morcegos nunca aparecem à luz do dia, e aquele nunca mais veio beber da água doce dos beija-flores.

Lucia Padilha

Lucia Padilha 37 anos, nasci 9 meses após o golpe de 64 (minha mãe acha que fui um “golpe” de sorte), nasci e me criei no interior do Rio de Janeiro, Bom Jesus do Itabapoana, cidadezinha perdida entre ES e MG, mas que na partilha de estados coube ao RJ.

Adoro contar e ler histórias; ensino História. As conjunções de palavras me encantam e, como em jogo de encaixe, monto-as tendo como tabuleiro minha vida e sentimentos. Se parecem desordenadas, perdoem; ainda estou aprendendo...

Biografia pinçada do site Anjos de Prata