Sem palavras

Num lampejo de insensata lucidez rompeu com o mundo. Pediu demissão da família, da medíocre vida que levava, de tudo.. Cansou, jogou a toalha. Não queria mais. A rotina parecia lhe carcomer a alma já triste o suficiente com o tudo à sua volta.

Não fez testamento, não praguejou. Simplesmente desistiu e pronto, parou de brincar.

Nú entrou no mar gelado, sentiu o cheiro salgado da espuma a empurrar-lhe o corpo. Sobre sua cabeça o negro céu da noite despedia-se dele, não haveria estrelas nem luas em seu derradeiro mergulho. Nada o salvaria de si mesmo e nem queria. Cansou e pronto.

Não, não é doce morrer no mar. Não era exatamente um final feliz. Para ele, a melancólica tristeza era seu testemunho final. Haveriam outras vidas onde poderia se sentir melhor, mais produtivo, mais útil? Prestes a descobrir lançou um último olhar para as luzes da cidade já longe na praia. Uma única última lágrima também salgada juntou-se ao infinito de águas negras. Afadigado foi-se.

fechar