Simpatia

Sempre tive antipatia por simpatia. Imagine a cena. Alguém está tranqüilo no seu canto, quando de repente: pimba! Outro alguém vai lá não sei onde perto daquilo que ninguém sabe onde fica e faz (ou encomenda) uma simpatia para o pobre cidadão, seja em busca de seu coração ou de seu voto.

um encantamento sem encanto, mas que, segundo quem usa ou já usou deste expediente jura que funciona mesmo, lá vai a pobre alma meio que a contragosto, se apaixonar, ou melhor “ser” apaixonado ou votar por alguém que não queria jamais ter por perto nem com "reza braba".

Aí em função de um (des) encantamento sem propósito, de uma maracutaia, o que acontece? Das duas uma, dependendo da meta da simpatia: ou namoro, noivado, casamento, filhos, vida a dois, vida em família; ou então se vê obrigado a conviver com alguém que ele nem sabe como nem por que ajudou, num governo em quem nunca acreditou.

Mas penso eu que lá no fundo d'alma o iludido sente que alguma coisa não está certa, aliás nunca esteve desde o estranho, esquisito, insólito começo.

Por que cargas d'água naquele dia em que estava distraído no ponto de ônibus prestando atenção em absolutamente nada, surgiu de um outro nada, que não tinha nada a ver com o seu nada em absoluto, uma pessoa e lhe esbarra meio que sem querer e puxa prosa, gentilmente paga a sua passagem, e de quebra ainda lhe põe na mão um “santinho” de candidato, pois por outro motivo ainda mais místico/estranho, tinha perdido seus passes (de ônibus e não da simpatia) e estava mais misteriosamente ainda sem um tostãozinho na bolsa.

Senta ao seu lado no banco no ônibus como coisa ensaiada, e não foi? A simpatia não seria um "déjà vu" anunciado?

Segue o bonde: desce no mesmo ponto que ela, onde estranhamente jamais tinha descido, pois naquele dia, por estar sem dinheiro (outro sopro do acaso?) resolveu descer dois pontos antes e passar na venda onde tinha caderneta para levar pão e queijo para o lanche da tarde, embora jamais lanchasse às tardes, pois vivia de regime. O outro ainda lhe acompanha até a porta de casa e pronto! Ficam íntimos, amigos até, e então pouco, aliás pouquíssimo tempo depois começa o namoro, o noivado, o casamento, os filhos, estranhas afinidades políticas etc. e tal.

Pois mesmo matutando, procurando explicação, estas relações nunca estarão completas, nunca amará ou se vai engajar de verdade. A vida vai passar devagar seguindo seu rumo, depois de muito repensar, depois de muita terapia de casal, consulta a vidente e aos búzios, conversas de boteco e acompanhar noticiários diariamente, vai engolir sua frustração, vai dar de ombros e mal-humorado que só e resmungar: “Coincidência, azar, mera e trágica coincidência.” Coincidência... azar... sei...

A simpatia (se é que funciona mesmo) para conquistar o amor ou o voto de outro é desonesta, não permite escolha, as coisas mágicas são sempre assim, quando usadas para o bem são maravilhosas, mas podem ser perigosamente antipáticas.

É por estas e outras que tenho cá comigo uma certeza imutável: eu tenho a maior das antipatias por simpatias, lá isso eu tenho, e como tenho... Mas por vias das dúvidas, quando me sinto ameaçado, bato na madeira... pé de pato bangalô três vezes...

Amor assim conquistado geralmente acaba em raiva e separação, e voto, já o voto pode até acabar em morte, em morte Severina.

fechar